domingo, 16 de setembro de 2007

DÉCIMO NONO DIA Sábado, 15 de Setembro de 2007.


Os seguranças, antes sérios e durões, já são todos nossos amigos. Nos dão “bom dia” sorrindo, fazem brincadeiras conosco, perguntam se podem entrar para jogar vídeo-game com o Beto, se podem entrar para tirar um cochilo... Viramos uma diversão para eles. Os funcionários das lojas mais próximas também: nos adicionam no orkut, mostram fotos dos filhos, oferecem o frigobar da loja para guardarmos nossa água. Esse convívio torna a nossa estada neste lugar mais humana, mais acolhedora. Antes, éramos estranhos, nos olhavam desconfiados, até amedrontados. Os seguranças rondavam nossa instalação como que para controlar qualquer atitude proibida que pudéssemos ter. Passado o perigo, tornamo-nos iguais: somos pessoas que, igualmente a todos eles, trabalham no shopping.

Percebi que, nos primeiros dias, os funcionários da loja em frente eram sérios, mesmo dentro da loja. Parece que se sentiam vigiados. Estavam diante de estranhos. Nos últimos dias, vejo-os conversando, rindo, mais tranqüilos, como se tivessem relaxados em relação à nós.

Senhoras dançam enquanto ouvem a música nos fones.

“É pra divulgar a música!” Diz uma delas. Será que alguém pensaria que a música estaria ali para divulgar a instalação? Porque a música tem mais força nesse caso?

Uma das coisas importantes deste trabalho é o nosso registro de gastos. Diariamente anotamos todos os gastos, guardamos as notas fiscais, fazemos uma estimativa para vermos se estamos dentro do que podemos gastar.

Visitantes amigos, Sérgio e Cristina estiveram aqui no meio de uma caminhada. Ouviram a música, à qual reagiram com entusiasmo e comentários positivos. Sérgio disse que estava ótimo, que fazia a gente pensar sobre o que está acontecendo, e que é isso mesmo... E que nós devíamos estar na Bienal, e não na Bienal B. Deixaram beijos para a Cláu e se foram.

Uma família se aproxima do LAR e um dos dois filhos do casal, uns 4 anos, começa a deslizar dois dedos na grade, seguindo as curvas dela. Aquele movimento lento e cadenciado começou a me cativar, como um vaivém hipnótico. Então a mãe colocou os fones de ouvido nele. Continuou naquele estado zen, com uma expressão facial de curiosidade relaxada. Me lembrou aquelas fotos do Dalai-Lama. E, depois de ouvir, ele tentou escalar a grade. Já isso me lembrou mais o Homem-aranha. Não é a primeira criança que tenta escalar a grade.

“Se não se comportar muito bem, vai ficar que nem ele”, uma mãe disse à filha, apontando para mim.

Mais visitas de amigos. O meu colega de colégio Renan e seu pai aparecem para dar um oi. (Inúmeros amigos aparecem diariamente, é até uma injustiça citar apenas alguns, mas aí o Beto escreveu a frase anterior e achamos melhor conservá-la.)

“Apareceu na TV!”, diz quase gritando uma adolescente, para as amigas.

“Porque eles estão aí, mãe?” – “É como se fosse uma gaiola.”

“Ô moço, isso é uma cadeia?” Não, é a nossa casa.

“Isso é pras pessoas ficarem menos em casa!” Explica um passante aos amigos.

“Vocês são ladrões? Ah, não? Ah, tá, que susto!” Pergunta um menino de uns cinco anos.

Interessante ouvir diversas línguas faladas pelos visitantes... Japonês (ou Chinês?), Alemão, Inglês, Francês, Espanhol! Há um americano que sempre passa, sorri e conversa conosco em inglês... Outro dia o encontramos quando chegávamos, pela manhã, ao shopping, e ele nos acenou da frente do hotel onde está hospedado e desejou-nos um “good job”!

Pessoas sorriem para nós como se nos conhecessem há anos...

“Só isso? Eu posso escutar de novo?” Diz uma menina que adorou a canção.

Eu e o Beto passamos muito do nosso tempo conversando e criando. “Uma boa idéia primeiro existe na imaginação.” Li isso em algum lugar.

Nos demos de presente uma linda banana-split! Funcionou maravilhosamente bem como cenário. Mas durou bem pouco. Dividimos-na, cada qual com a sua colher, sentados no chão, no meio da instalação, tal qual a Dama e o Vagabundo dividindo o spaguetti.

“Parece que passou um furacão, porque tem uma cadeira no teto!”, diz uma menina para a mãe.

Três moças que passavam param diante das grades. Olham por um segundo e, uma delas tira a sua conclusão: “Ah, já entendi, é o casamento!”

Ganhei docinhos do meu querido tio Ricardo, pelo meu aniversário. E, ao comentar sobre a tensão de estar o dia todo em público, aprendi com ele, que é músico da OSPA há mais de 20 anos: “Mesmo que haja um milhão de pessoas na platéia, cada pessoa é uma pessoa, então é como se houvesse, sempre, uma pessoa... Cada uma de um milhão, é uma.”

sábado, 15 de setembro de 2007

DÉCIMO OITAVO DIA Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007.

10h23. Terminamos nosso café da manhã. Saio do nosso LAR, vestindo minha discreta camisola e minha manta de croché preta, para ir à farmácia, buscar umas gotas de hidratante facial, que pego, muito naturalmente, nos mostruários... Aproveitei para me pesar e ver o estrago desses dias sem exercício algum, fora correr do ponto de ônibus até o shopping pela manhã e do ponto de ônibus até nossa casa “de verdade” à noite (o que é um exercício bastante arriscado, já que moramos no centro). Até onde esse trabalho modificará até mesmo nossos corpos? Na farmácia, os atendentes fazem perguntas sobre o trabalho, parabenizam pela iniciativa.

10h30. Eu e o Beto sentamos para as tarefas virtuais: atualizar site, divulgar o trabalho, responder e-mails... A Internet é muito, muito lenta.

12h48. Estou imersa no trabalho digital. O Beto dorme seu sono diário matinal, que funciona maravilhosamente bem como cena. Aproveito para escrever.

Maquiagem, unhas, cuidados com os quais não costumo me preocupar “tanto”. Coisas da vida pública. Repito essas ações inúmeras vezes por dia aqui dentro. Eu, enquanto obra.

Pessoas sem paciência para ouvir. Algumas escutam somente os primeiros segundos.

Um grupo ouve toda, um por um, admirados com o Beto, que dorme, aparentemente profundamente, às 12h58 min.

“Eu não curto esse negócio de instalação! Não vejo graça nenhuma!” Vocifera um passante, enquanto escrevo.

Tarefas do LAR são divididas sem combinação prévia, numa mútua cooperação. Hoje o Beto foi buscar comida num restaurante nos arredores (um local acessível e com uma comida muito bem feita, onde alguns funcionários do shopping costumam comer). Ao chegar, levei a comida e nossos pratos à loja vizinha, onde já fizemos amigos, para servir-nos. Eles têm uma mesa, o que não temos, e achamos que poderia ser um pouco desagradável ao público ver-nos envolvidos com potes de comida pelo chão. Pura logística. Preferimos que já vejam nossos pratos servidos harmonicamente, saindo sabe-se lá de onde, para confundí-los e ser esteticamente agradável ao mesmo tempo. Comemos sentados: o Beto na cadeira e eu na cama, com os pratos sobre os joelhos. Ao terminarmos, o Beto lavou a louça, num local usado pelos funcionários do shopping.

Após o almoço, movimento intenso, li um pouco, enquanto o Beto trabalhava no computador. Tive sono, busquei um cafezinho para mim e um quindim para o Beto. (Juntos, somos praticamente um Mário Quintana!!! ...Ao menos nos gostos!) Peguei na cafeteria uma revista CARAS para ler... Não há o que ler... Só imagens de uma realidade irreal. Mas interessante antropologicamente.

Visita de amigos queridos com presentes muito simbólicos. Uma plantinha Espada de São Jorge, para nossa proteção. E um massageador para a cabeça, um estranho aparato anti-stress, parecido com uma aranha, cuja massagem nos deixou realmente muito relaxados. As pessoas parecem estar sentindo que podemos estar precisando de proteção... É estranho estarmos entre grades, mas desprotegidos. É justamente uma das coisas que questionamos. Um outro amigo, logo depois, ensinou-nos uma maneira de rezar e se proteger das energias diversas às quais estamos expostos aqui.

Trouxemos lindas maçãs para o lanche. Perfeitas, brilhantes, pareciam de cera. Ao mordê-las, não tinham gosto algum...

Tínhamos ao lado do nosso LAR um cão cenográfico, o qual chamamos, num ato de originalidade, de Rex, que pertencia ao shopping. Desde o início haviam emprestado o Rex, que já era da família, fazia parte da vida neurótica dos nossos personagens, completando esse triste quadro com a imagem desesperadora de um cão cenográfico. Pois bem, o shopping, hoje, levou-nos o Rex. Como quem muda um banco de lugar.

Nossa tranqüilidade e satisfação aqui dentro, por vezes, alteram a leitura do trabalho. As pessoas vêem um ambiente feliz. As grades já fazem parte de tal forma, que já não as assusta.

Quando não há ninguém nos fones, as pessoas se aproximam menos. Se há alguém nos fones, formam-se filas para ouvir também.

“Vocês estão aqui para chamar a atenção?”

“Mas vocês não moram, de verdade, aqui?” (Expressão de decepção.)

“É para reivindicar alguma coisa que não permitiram vocês, enquanto namorados, fazerem?” (Terá ele pensado em sexo?)

“As pessoas se sentem presas, não podem fazer as coisas que querem, porque a sociedade não permite...”

“Cada objeto tem um significado?”

“Trancaram vocês aí, ou vocês estão aí por gosto?”

“O computador escraviza...”

“As pessoas não entendem porque hoje em dia vem tudo pronto, as pessoas estão com preguiça de pensar.”

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

DÉCIMO SÉTIMO DIA Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007.

10h30

Já fizemos nosso “desjejum”, limpamos nosso LAR, liguei o computador para as primeiras impressões do dia, enquanto o Beto lê o jornal. Ouço as vozes do pessoal da loja ao lado conversando. Dão risada, brincam, como estão felizes hoje!

O Beto dorme. Pessoas me perguntam: “Ele fica dormindo sempre? E quando ele acorda, o que ele faz?” Tive que me segurar para não rir. Parecia que falavam de um cachorrinho. Só faltou fazerem cafuné no Beto.

Estamos exatamente na metade dos dias para a conclusão deste trabalho.

Enquanto eu passava, “de quatro”, a mini vassourinha no nosso tapete preto que junta horrores de farelo e pó, dei de cara no tênis do Beto. Ele lia, de pernas cruzadas. Espaço limitado. Muitas pessoas questionam sua própria capacidade em ficar nesse espaço pelo tempo que estamos. O ser-humano não sabe do que é capaz.

12h04. Acabei de atualizar o blog. Vamos aos e-mails. 12h25. Terminei os e-mails. Vamos ao orkut. 13h. Terminei o orkut. O mundo virtual já não pode ser descartado da vida atual.

O segurança veio perguntar se não estamos loucos para que “isso” acabe. Uma amiga perguntou quando acaba o “calvário”. Parece que as pessoas estão sofrendo mais do que nós por estarmos aqui.

Almoçamos frango e salada, trazidos de casa. (Almas caridosas, funcionários do shopping, se ofereceram para aquecer nossa comida! Aceitamos, gratos.)

14h15min

Vou à aula prática de serigrafia! Já volto!

“E a gente que reclama, olha quanta felicidade aqui!” É o comentário de uma moça para sua amiga, enquanto ouvem a canção. Ela havia perguntado se eu era o artista, respondi que sim, junto com a Cláu, que no momento está na aula. Conversamos depois e ela comentou sua leitura da obra, achando lindo o que estávamos fazendo, dizendo que “a beleza surge em qualquer lugar, e as pessoas ficam somente reclamando por tudo”. Perguntaram se temos um Cd, expliquei que havia o Cd Cow Bees Feito em Casa, e que estamos produzindo um cd feito em estúdio, para eliminar os problemas técnicos e falta de tecnologia de áudio que tem o Feito em Casa. E ela disse uma coisa muito bonita: "que eu mantivesse um pouco dos erros, porque eles são humanos". Expliquei que ainda temos o Cd Feito em Casa, para quem entende que se trata de um objeto artesanalmente produzido, que contém uma ternura e uma ingenuidade únicas. Pessoas que enxergam isso não se voltam a criticar falhas técnicas e a depreciar o valor técnico de sonoridade, acabamento, arranjos... É um artigo cru de vontade ingênua, uma gravação feita para registrar e compartilhar uma criação que estava emocionando nossa platéia, nossos amigos e familiares, registrar um momento.
Fui eu, Beto, que decidi parar de vender o Feito em Casa. Porque me desagradam comentários negativos que possam surgir a respeito do disco... Pessoas que não nos conhecem, ou não nos viram tocando ao vivo, e que certamente não tiveram generosidade suficiente para limpar (e, por que não, aceitar) as imperfeições e ouvirem a idéia que passamos, a inventividade das letras da Cláu (a quem eu humildemente auxilio na composição, por vezes) e a minha tentativa de fazer canções coerentes e com beleza, ao meu estilo, e que sejam o meio de expressar algumas coisas que sentimos.
O Feito em Casa é a beleza ingênua que existe em dois artistas que, de qualquer maneira, gravam as suas próprias músicas, fazem as cópias, desenham própria capa e sentem-se felizes por isso. É uma contradição do mundo digital: como um mínimo de tecnologia possibilita que uma ação totalmente humana-analógica-emocional surja?
Refinamento técnico é necessário... Eu mesmo quis e podemos fazer um trabalho de gravação de extrema qualidade, é a nossa produção de estúdio. Mas não se pode perder a interpretação, o sentimento, a capacidade que uma canção pode ter de arrepiar. Ainda quando escuto o Feito em Casa, viajo nas nuances de significado das letras e no conforto que aquelas músicas me transmitem, e me perco em meio a lembranças e sensações deliciosas.
O Cow Bees em estúdio pode até ser melhor gravado, arranjado, e tudo o mais. Mas, no final, o que vai contar, para mim, é o arrepio, o sorriso no rosto ou as lágrimas nos olhos.

17h. Volto da aula. Eu, Cláu.

“Pode entrar aí?” Pergunta uma visitante.

“A Bienal B é contra a Bienal do Mercosul?” Não, é um movimento paralelo e, ao contrário, aliado à Bienal do Mercosul.

Cansada, dormi 30 minutos, com um livro aberto sobre o rosto. Um pseudo-sono, ouvindo tudo o que acontecia ao redor, ouvindo as pessoas perguntarem ao Beto se eu dormia o tempo todo.

“Será que eles nos ouvem???” Pergunta uma criança à mãe, em frente às grades.

Final de noite. Duas senhoras param em frente às grades. Uma delas sugere que escutem a canção. A outra responde: “Não posso, vou estragar meu cabelo!”. (Ok, Beto, são 22 horas e nossa arte não vale um cabelo. Acabou por hoje. Amanhã tem mais.)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

DÉCIMO SEXTO DIA Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007.

Estamos totalmente ambientados. Sinto-me quase em casa. A diferença é que, aqui, não consigo parar um segundo, mesmo que não pareça. É preciso administrar a obra o tempo todo: conferir visualmente, conferir os fones de ouvido, os volumes, se estão funcionando corretamente. E a nós enquanto obra. Escrevo muito, tudo precisa ser registrado. Verifico como anda o mundo real pela internet e jornais. Filmo, fotografo. É preciso energia o tempo todo para manter a obra, manter o quadro, para as pessoas desfrutarem exatamente do que pretendemos que desfrutem. É um não-relaxamento constante. 12 horas de trabalho diário constante.

Diariamente, antes de qualquer coisa, quando ainda estou organizando o espaço, preparando a “cena”, o Beto sai de dentro da jaula, vai até os fones, e escuta a canção. Às vezes, fecha os olhos, segura nas grades, outras vezes fica olhando tudo, com o olhar estranhamente distante. É como um ritual que, acredito, faz com que ele “entre na história”. Algumas vezes fiz o mesmo e muda tudo. A visão das grades, ouvindo a canção, que é um misto de felicidade e tristeza, ironia e crueldade, faz re-entendermos a razão de estarmos aqui, nesse momento.

O meu ritual é entrar já anotando as primeiras sensações do dia. O registro desse trabalho é tão importante quanto o próprio trabalho, porque se trata de uma obra viva que se move em direções diferentes a cada momento, gerando, constantemente, outros pontos de vista e questionamentos.

Nossas vidas reais surgem o tempo todo na obra. Olho em volta e observo: temos três celulares aqui dentro, às vezes um está carregando... Uma cena cotidiana muito atual. Aquele monte de fios, fio do carregador, fio do lap top, fio do vídeo-game, da tv que nunca usamos. Fios.

Algumas vezes, somos mesmo prisioneiros. Quando estamos com o pé na porta para irmos rapidamente ao banheiro, aparece um grande grupo de pessoas para verem a instalação. Então, disfarçamos, esperamos o movimento diminuir para sair. A canção LAR DOCE LAR é cantada pelo casal, fala de uma realidade que remete a um casal que faz planos para comprar a sua casa, então queremos estar, os dois, aqui, enquanto as pessoas ouvem a música.

Manhã bastante movimentada hoje! E dia lindo de sol lá fora. Faz 32 graus. Não aqui, onde temos ar-condicionado o dia inteiro.

Pessoas param em frente às grades e escrevem, escrevem, escrevem... O que escrevem???

Enquanto o Beto faz seu descanso, deitado, de olhos fechados, uma espectadora chega bem perto das grades e grita: “Acordaaa!!!”.

Outra passa dizendo à pessoa que está com ela: “Acho que é Jesus!”. Fiquei pensando: Jesus preso numa jaula, dentro de um shopping. Muito contemporâneo isso. Um outro trabalho.

Fomos entrevistados pela Natália, da Revista Noize (www.noize.com.br). Uma revista produzida em Porto Alegre, sobre música. Vamos estar na próxima edição, Outubro. Impossível não tocar nesse assunto, quando conversamos por quase uma hora sobre música, arte, filosofia e psicanálise, assuntos que amamos, com uma pessoa que nunca havíamos visto na frente, mas com quem tivemos imediata empatia. Coisas mágicas desse trabalho. Ela veio, perguntou se poderia conversar conosco e sentou no chão, ao lado da jaula. Como nenhuma das nossas “visitas” tinha feito. Nós, no chão também, do lado de dentro. Talvez esse gesto tenha sido o primeiro passo para criar uma atmosfera tão interessante. No chão, como índios, como crianças, como num ritual. E mais uma cena se fez. Às vezes as relações se confundiam, esquecíamos quem estava fora e quem estava dentro... Quem era entrevistado e quem entrevistava... Uma das coisas importantes dessa conversa foi o que ela comentou sobre uma impressão sua a respeito do Diário Lar Doce Lar. Lendo nosso texto, ela percebeu que as pessoas pensam que estão nos observando, mas nós é que as estamos observando. E é exatamente como nos sentimos às vezes. Quem está atrás das grades? Nós ou eles? Ainda que estejamos aqui presos, quem está preso de fato? Nossos pensamentos e idéias estão livres, concretizados neste trabalho. E os seus?

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

DÉCIMO QUINTO DIA Terça-feira, 11 de Setembro de 2007.


No caminho para o shopping, um dia lindo, e hoje é meu aniversário. Agradeci por estar viva, saudável e feliz.

Ao chegar no shopping, percebi uma dormência estranha no canto do meu lábio superior. Não acreditei! Um pontinho branco, como uma espinha... Será herpes labial? Nunca tive, mas a baixa imunidade pode fazer aparecer herpes. O Beto foi à farmácia e comprou uma pomada para herpes. Passei e fiz uma oração para curar seja lá o que for. (Obs. Ao final da noite tinha desaparecido. Terá sido a pomada ou a oração? As duas, acho.)

Essa manhã o shopping está mais movimentado.

Dividimos uma fatia de torta com uma vela de aniversário em cima, que o Beto, sorrateiramente, trouxe, escondido, para mim. Cantamos “Parabéns a você”, bem baixinho... Eu comemoraria mais abertamente se hoje não fosse o dia 11 de Setembro... E se pensarem que somos terroristas?

Passam os rapazes armados, com seus malotes preciosos. Olhos arregalados, como que concentrando toda a energia do corpo em observar tudo ao redor. Como feras na selva. Há caixas eletrônicos dentro do shopping, que são movimentados por rapazes em alta tensão.

Costumamos usar os banheiros do andar de cima, que são os mais próximos e, portanto, é mais rápido. Queremos estar os dois na cena o máximo possível, porque achamos que o impacto é maior ao ver um casal enjaulado do que uma pessoa só. A ida ao banheiro é sempre interessante porque, na escada rolante, ouço os comentários das pessoas que estão subindo e não sabem que faço parte da obra. Por exemplo, duas adolescentes comentam entre si: “Olha ali, o cara enjaulado, jogando vídeo game! O cara tem que estar louco pra fazer uma coisa dessas, né?”

Sentados no chão, dividindo um sonho de doce-de-leite, felizes como duas crianças. No meio de um shopping classe A. Se uma dessas pessoas, que freqüentam este lugar, dar-se conta de que é preciso muito pouco para ser feliz, esse trabalho terá valido a pena. Ainda que esse não seja o seu tema principal.

Um rapaz da administração do shopping comenta conosco que o pessoal da sala dele diz que é um “Big Brother” a dois...

“Porque vocês estão engaiolados?”

“Vocês são hippies?”

A senhora aquela que veio ver a obra nos primeiros dias, e disse estar com pressa porque precisava fazer um jogo de “cinco Marias” para a neta de dez anos, voltou para ver se “ainda estávamos aqui”. Ficou admirada com a nossa paciência e contou histórias da sua vida em família. Assim, como uma vizinha que chega na nossa janela. Ouvimos as suas lindas histórias de vida, e cada espectador que chegava, ouvia também. Mas logo ela precisou partir: precisava fazer uma “cama de gato” (aquele jogo infantil antigo, feito de fios) para a neta.

Uma espectadora comenta conosco a sua leitura da obra, diferente de todas as já ouvidas. Para ela, representamos um casal feliz, mas isolado, que não quer dividir essa felicidade com ninguém, vive no seu mundinho próprio.

Manter nosso LAR DOCE LAR em ordem, às vezes, irrita, já que não somos nenhum primor de organização. E queremos tornar o local sempre visualmente agradável, sem bagunça. Não que não apreciemos a bagunça, mas ela daria uma outra leitura. Queremos parecer suficientemente “normais”. Bagunça denota uma certa liberdade da qual não desfrutam os nossos personagens.

Fome. Comida cara. Este é o nosso momento. Acabou a comida que trouxemos de casa e nos recusamos a gastar uma quantia exorbitante por um cafezinho e um pão de queijo, que iria nos alimentar até que cheguemos em casa, à noite. Shoppings são caros, é fato. Por mais que as pessoas queiram dizer que não, até por timidez de assumirem sua falta de recursos. Somos artistas, nosso capital é limitado e podemos assumir que, sim, nossos recursos são parcos. E, se ninguém assume, nós afirmamos: a comida no shopping é um absurdo de cara. O que não impede que pessoas venham passear e comer aqui, como uma forma de lazer. Vivemos fazendo isso, quando estamos vivendo a vida real. Mas, diariamente, é impossível. Saí do shopping e fui à padaria da esquina. Triste destino. Não aceitavam cartão e eu não tinha dinheiro vivo. Voltei irritada e o Beto foi à praça de alimentação do shopping. Comprou, após longa pesquisa, o que encontrou de melhor custo-benefício: dois cachorros-quentes (bem pequenos, daqueles de aniversário) e um café com leite, por R$6,80.

Recebi abraços dos lojistas que sabiam do meu aniversário!

Ganhamos uma revista de cortesia de um rapaz que trabalha na livraria e já ficou nosso amigo... A gerente da livraria nos empresta livros da biblioteca dos funcionários, por iniciativa dela, porque a administração geral da rede negou emprestar livros como forma de apoio cultural, mesmo após mandarmos um projeto solicitando. É bom colocarmos as dificuldades enfrentadas na busca por apoio. Quem trabalha com produção conhece bem esse dilema. Depois da obra pronta, às vezes, nem dos damos conta das dificuldades enfrentadas para realizá-la.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

DÉCIMO QUARTO DIA Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007.


“Paralela à sexta Bienal do Mercosul, acontece este ano a primeira Bienal B. Dá uma olhada no que esse pessoal ta aprontando!” É o texto de abertura do jornalista da TV CRISTAL, canal 11 da net, que veio fazer uma reportagem sobre a Bienal B e gravou a chamada em frente ao nosso LAR. Enquanto testava o equipamento, ia repetindo no microfone esta fala, que decoramos de tanto ouvir. E assim teve início esse dia. Na rua, calor e sol. Aqui, o gélido ar-condicionado e a luz artificial, à qual já nos acostumamos.

Após o nosso “desjejum”, que foi leite achocolatado e pão de queijo trazidos de casa, o Beto deitou um pouco. Essa primeira hora da manhã, durante a semana, é a menos movimentada. Enquanto ele descansava, comecei a ver os e-mails. Interrompi minha função matinal e o sono do Beto para comemorarmos a visita do músico Nando Reis, que escutou e até bateu o pé no ritmo da nossa música LAR DOCE LAR. Como somos admiradores do seu trabalho, foi uma grande honra nossa canção sendo ouvida por ele, que saiu sorrindo e nos deu parabéns pelo trabalho. É muito bom ter o nosso trabalho reconhecido por pessoas que admiramos.

A tarde foi tranqüila, como são as segundas-feiras no shopping. A freqüência consiste basicamente em pessoas que trabalham nas redondezas e vêm ao shopping para almoçar. A praça de alimentação fica cheia. As lojas, vazias. As pessoas passam apressadas e pouco disponíveis.

Hoje, nos permitimos comer “comida de shopping”. Fui à praça de alimentação, comprei uma comida “de verdade” e desci com os pratos prontos. Comemos sob o olhar atento dos nossos espectadores, que adoram nos ver comendo.

Aproveitamos para trabalhar no computador: mandar e-mails importantes, colocar o “Diário Lar Doce Lar” no nosso site oficial... O Beto jogou vídeo-game, eu escrevi...

Seguem as perguntas: “Aqui é mostruário de quê?” ... “Vocês estão vendendo o quê?”

Hoje é o dia em que saio mais cedo, às 18h, para ir à aula. Deixo para o Beto os próximos registros do dia...

Duas senhoras pararam para ver e ouvir LAR DOCE LAR, uma delas com um sotaque francês, ao que fui descobrir que era francesa...Ouviram, viram e não se satisfizeram. A “francesa” perguntou se tinha o CD à venda, depois de dizer “vimos, ouvimos, e agora, é só isso?”. Foi só aquilo mesmo, pois reparei que estavam pouco disponíveis para ver, e pensar. É muito comum isso por aqui. Tempos pós-modernos, tempos ansiosos...

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

DÉCIMO TERCEIRO DIA Domingo, 09 de Setembro de 2007.

Lindo dia de sol, shopping vazio pela manhã. Algumas poucas pessoas passeiam lentamente pelos corredores, olhando vitrines, olhando para o nosso LAR.

“Olha, filho! Hoje o tio tá acordado! Lembra que nós passamos aqui e ele estava dormindo?” Diz uma jovem mãe para o filho de uns dois anos de idade, apontando para o Beto. Percebo que, aos poucos, para alguns, estamos também virando uma atração já esperada e conhecida, que as pessoas já vem ver para saber como estamos, o que estamos fazendo hoje... Um senhor trouxe a filha, uma menina de uns cinco anos de idade, e perguntou detalhes do trabalho, dizendo que estava acompanhando desde o início, que a filha já tinha ouvido outra vez e havia pedido para voltar e que ele já tinha pesquisado o nosso site para pegar a letra da música. Esse comportamento só é possível a partir do momento em que se dá um tempo para a familiarização do público, o que não aconteceria caso ficássemos apenas uma semana. E transforma o espectador, que deixa de ver a obra como uma surpresa, mas passa a procurá-la como algo já conhecido e, a cada vez, melhor compreendido e absorvido.

Um amigo, também artista, vem visitar o LAR DOCE LAR e traz a sua mascote, uma gata preta, que só saiu de casa para visitar o veterinário. A gatinha estava assustada, não é acostumada a lugares públicos. Nossa surpresa é que, quando ele se aproximou das grades, a gatinha se desesperou para entrar na nossa jaula, mesmo sem nos conhecer. Grudou as patinhas nas grades e queria entrar de qualquer jeito. Segundo o dono, ela achou que o espaço seria um refúgio, uma casa de verdade, por isso a súbita e desesperada vontade de entrar aqui conosco. Ficamos admirados. Conseguimos enganar um gato! Realmente, é a prova que precisávamos para termos certeza de que o trabalho funcionou...

“De que adianta vocês estarem aí? As pessoas não entendem! Era melhor que vocês fizessem uma enquete, para saber o que as pessoas estão pensando da violência! Bom mesmo era o tempo do regime militar!” Opinião de espectadora. Inúmeras pessoas vêm nos dizer que querem de volta o regime militar...

Na maioria do tempo aqui dentro eu estou feliz, mesmo que não demonstre. Hoje, um lindo domingo de sol, pela primeira vez, me senti um pouco triste. Aqui, vendo as pessoas “livres”, passeando, pensei no quanto estar atrás das grades é realmente triste. O quanto as pessoas são tristes quando se sentem presas. O quanto a nossa sociedade é presa e triste. A raiz deste trabalho sempre foi essa tristeza, mas eu nunca a tinha vivenciado emocionalmente aqui dentro, de forma inteira, sensorialmente. Hoje experimentei essa dor na carne. Não o personagem, eu, a Cláu. Para a realização dessa obra, nossas vidas como que pararam. Estamos vivendo esse trabalho em tempo integral, mesmo quando fecha o shopping e vamos para a nossa casa “de verdade”. Quando chegamos em casa, precisamos cuidar de tudo para podermos voltar no outro dia, precisamos verificar os figurinos, providenciar a comida para o dia seguinte, cuidar de coisas que tenham ficado pendentes, lavar louça, roupa. Temos ido dormir exaustos e, ao menos eu, tenho sonhado diariamente com o trabalho. A obra é tão viva que nos persegue quando saímos dela. A estamos vivendo.

Muitas pessoas perguntam se somos realmente um casal e, diante da resposta afirmativa, dizem que se o relacionamento sobreviver a estes 35 dias, nunca mais nos separaremos... Apesar de todas as dificuldades em lidar com essa realidade à qual estamos nos dispondo, a menor é a convivência. Ocupamos muito bem o nosso tempo aqui dentro e costumamos respeitar muito o tempo e espaço um do outro. Quando nos movemos neste lugar de 2,5mx2,5m, parecemos dançar uma coreografia ensaiada... Um se move sempre em relação ao outro, cedendo lugar quando preciso, pensando no bem-estar do outro ao mesmo tempo em que pensamos no visual geral da obra. Até mesmo beber um copo d’água é coreografado: pega a água e os copos quem está mais perto do armário onde guardamos os mantimentos, para facilitar a movimentação no espaço. A hora de comer é planejada: o Beto é maior do que eu, então ele come sentado na cadeira e eu na cama, para equilibrar visualmente. E, assim, vamos dançando a nossa obra viva... E, por incrível que pareça, como aqui evitamos um contato mais íntimo por considerarmos inadequado para o trabalho, mesmo estando assim tão perto o dia inteiro, temos saudades de estar um com o outro. Estar junto nem sempre significa estar perto.

“Eu não vejo as grades. Vejo um casal bonito e feliz, fazendo a sua arte, como os passarinhos que eu tenho, na gaiola, em casa, que cantam todas as manhãs pra mim!” Opinião de mais um espectador.

“Eles estão aí pra fazer um desafio e mostrar por quanto tempo eles conseguem ficar numa jaula!” Uma senhora que passa, explica à outra.

Uma espectadora nos diz que é difícil emocionalmente nos ver aqui dentro, fica extremamente tocada com o que julga ser um sacrifício por uma causa pela qual poucas pessoas tentam fazer alguma coisa. Sente-se culpada por não estar fazendo nada para mudar as coisas que acha que pode mudar...

DÉCIMO SEGUNDO DIA Sábado, 08 de Setembro de 2007.

Rotina de organização do LAR, café da manhã e brincadeira de criar paródia com a canção da Parmalat... Impublicável...

Após doze dias somos totalmente diferentes do que éramos quando entramos. Depois de muitas conversas filosóficas, com contribuição de outros artistas, estudantes de arte e teóricos, chegamos a uma certeza que já vinha se instaurando, mas que agora é fato: somos, sim, obra em processo. Não só a instalação como nós, enquanto obra. A construção desses personagens, que são mutáveis e adaptáveis, são processo. É difícil enxergar quando se está dentro, quando se é parte de algo. Quando a entrega total é necessária e a racionalidade precisa ser deixada de lado. Para mim, no início do LAR DOCE LAR, nossos personagens deveriam ser como atores em um palco. A platéia, normalmente, não intervém numa peça de teatro. E poderíamos ter mantido este acordo mas, como muita coisa nesse trabalho, o rumo que a obra tomou foi simplesmente uma surpresa. Os personagens se fundiram a nós e passaram a interagir, sim, com o público. Ainda não somos nós, mas quase. Os amigos vêm nos visitar, como quem vem à nossa casa. E alguns são recebidos, atrás das grades. Não os ignoramos como tínhamos planejado. Os incluímos numa performance que acaba por fazer parte do trabalho. As pessoas assistem a um casal recebendo os amigos através de grades. Aos desconhecidos tratamos como desconhecidos que, quando buscam interação, podem ou não receber a nossa atenção, dependendo do humor do momento. O importante desta relação é ter bem claro que somos todos vizinhos, companheiros de uma realidade, parceiros de uma situação da qual poucas pessoas conseguem não fazer parte.

O shopping é uma extensão da nossa casa...Vamos ao banheiro do shopping de pijama, à farmácia (“como quem abre o armário do banheiro de casa”, disse a Bibs) à livraria do shopping como quem pega um livro na própria estante de casa.

As primeiras espectadoras ficaram chocadas. Após ouvir a música fizeram o seguinte comentário: “Um pouco chocante para uma manhã de sábado”. Fantástico.

Uma jovem mãe vinha com o filho no colo, chorando alto, desde o início do corredor. Quando chegou em frente ao nosso LAR, a criança esticou a cabeça, se ajeitou melhor no colo da mãe e parou de chorar. Ficou olhando, com os olhinhos ainda cheios de lágrimas, pensando e olhando pra jaula e pra nós dois...

O jornalista da PUC voltou, para fazer novas imagens e entrevistar o Beto, que não estava aqui quando ele veio da outra vez. O Newtinho, também repórter, da TVE, passou e deu balas aos “animais” enjaulados...

Uma senhora se aproxima e começa a contar que ia comprar uma casa e, ao começar a calcular os inúmeros aparatos de segurança que deveria instalar, desistiu de fazer a compra, porque iria morar numa verdadeira prisão. O interessante é que, enquanto ela contava a sua história, rica em detalhes, as outras pessoas que passavam iam parando em volta para escutar, com uma surpreendente atenção. Foi uma incrível contação de história, uma verdadeira performance, ali, entrelaçada ao nosso trabalho. Quando ela acabou, as pessoas foram se dissipando, e logo, éramos outra coisa, prontos para a próxima surpresa.

“Isso é arte.” Diz uma adolescente com a sua trupe. E saem discutindo o que é arte e o que não é.

Algumas visitas nos fazem pensar no “aspecto playground” da obra de arte. Pais que trazem as crianças para nos ver como quem está indo a um parque de diversões... “Ouviu a musiquinha? Agora vamos lá entrar no cofrinho de espelhos!!!” Ouvimos de um pai com seu filho, se referindo à nossa canção e à obra da artista Cátia Costa. De que maneira essa forma de tratar a arte contemporânea será absorvida por essa criança? Como está sendo compreendida a arte contemporânea por esse pai? ...E tantas outras questões!

Cá estamos, tentando representar uma realidade, e nos jogam uma bolinha de papel, vinda das escadas rolantes. Terá sido um elogio, um ato de apoio, do tipo: “também me sinto assim!”? Ou um: “saiam daí, malucos!”? Preferimos nos regozijar do fato de estarmos provocando alguma reação.

Conversando com uma amiga também artista, ela falou de um aspecto do trabalho no qual ainda não havíamos pensado. A questão deste “não lugar” onde nos instalamos. Um lugar de passagem, um corredor do shopping, um “não lugar”, que transforma-se num lugar, a partir do momento em que nosso trabalho está aqui. Agora as pessoas param, conversam, ouvem e vêem o LAR DOCE LAR. Há um texto teórico sobre este tema, vou ler e poderei escrever mais sobre o assunto, que achei muito interessante.

No final da noite, apareceu o amigo, fotógrafo e apoiador Jener, com uma bandeja de sushi! (Estamos ficando mal acostumados.) Essa interação é incrível. É sempre uma surpresa, como um happenig a cada dia.

sábado, 8 de setembro de 2007

DÉCIMO PRIMEIRO DIA Sexta-feira, feriado de 07 de Setembro de 2007.

Feriado. O shopping se comporta como no domingo. As lojas só abrirão às 14 horas. Ainda assim, há pessoas passeando e olhando as vitrines... Tudo em câmera lenta. Muito diferente dos dias normais. É incrível como isso é perceptível energeticamente. Tudo parece mais leve. Até os seguranças têm um semblante mais calmo, dão longas passadas vagarosas. As pessoas sorriem, conversam, vez que outra, algumas, apontam para nós.

“Kunst Werk!” Obra de arte, em alemão. Se é bom ouvir isso na nossa língua, imagina ter o trabalho reconhecido como obra de arte em língua estrangeira!

Há coisas que não pensávamos gerar curiosidade, mas as pessoas perguntam muito sobre o que comemos. Pois bem: trazemos nossa própria comida, que consiste basicamente em sucos, café com leite ou leite achocolatado, sanduíches naturais, frutas, coisas práticas e, dentro do possível, saudáveis... Às vezes entram umas coisas menos saudáveis como cachorro quente, pastel, pão de queijo, pizza, chocolate, que ninguém é de ferro. Raramente comemos as comidas prontas do shopping, por questão tanto ideológica quanto financeira.

Após inúmeras sugestões de pessoas preocupadas com a nossa saúde, que insistem para que abandonemos nossa ação artística para irmos “descansar”, chegamos à seguinte reflexão: o trabalho responde de acordo com a nossa dedicação. É bastante óbvio, mas nem sempre refletimos sobre o óbvio. Se deixarmos de lado, irmos pra casa e acharmos que não vai importar “dar uma fugidinha”, é como se estivéssemos dando menos importância ao que há de mais importante e sagrado, neste momento, em nossas vidas. Isso gera um questionamento sobre a atenção que damos ao que realmente importa. Quando cuidamos bem de uma planta, ela cresce, saudável e bela. Assim é com os nossos projetos de vida. Se estivermos aqui, e houver uma pessoa vendo ou ouvindo o nosso trabalho, ele acontece. E nesses onze dias em que estamos aqui, não houve um momento em que essa mágica não aconteceu.

Um de nossos visitantes comenta a sensação de opressão de conversar atrás das grades. Que, depois de algum tempo nos vendo aqui dentro, sentiu um incômodo profundo, como se algo mexesse fortemente por dentro. Realmente, sentimos que o incômodo de estar “enjaulado” vai muito além da primeira percepção. As pessoas que resolvem interagir conosco ficam em pé e, tanto nós quanto elas, atrás das grades, ainda que estejam fora. Muitas já tentaram nos beijar através das grades, o que machuca o rosto, espeta, fere. O tanto que grades podem ferir. Os abraços que recebemos dos amigos, quando resolvemos sair da jaula para abraçá-los, são os abraços mais afetuosos e calorosos que já recebi. Como se estivessem cheios de alívio por nos verem em liberdade. Qual o resultado, então, de toda uma sociedade se desenvolvendo rodeada de grades?

Outro comentário de espectador é que estaríamos realizando o sonho de qualquer pessoa: passear de pijama pelo shopping, dormir, comer pelos corredores sem ser chamado de louco ou ser interpelado por seguranças. Neste momento, somos os donos do shopping. Os seguranças nos protegem ao invés de criarem limites. O incômodo da exposição foi quasei substituído completamente pela sensação de estar em casa. O que favorece imensamente o trabalho.

Uma mãe pergunta às suas três crianças (de aproximadamente 4 a 5 anos): “Vocês não notaram nada de diferente nessa casinha?” As crianças quietinhas, olham o trabalho. Ouvem, uma por uma, a canção. Saem conversando. O que terão conversado?

Um amigo, também artista, comentou conosco que estaríamos realizando o sonho de todo artista: observar a reação do público diante da sua obra. Realmente, ter esse retorno imediato é uma das melhores coisas desse trabalho. Enquanto eu escrevia este parágrafo, um espectador, com os fones de ouvido, escutando a música, dá uma gostosa gargalhada. Como uma benção do Universo.

Visitantes afetuosos nos presentearam com dois enormes sundaes, de morango e chocolate. Um presente doce para alegrar, da Fabi e do Leandro.

“Essa é a evolução da espécie!” Comentário de passante.

“Lavagem cerebral!” Diz um outro. Penso se no bom ou no mal sentido...

“Veja, ouça e pense!” Um senhor fala às pessoas que passam, após ouvir a canção.

São tantos, e tão ricos os comentários, que eu precisaria escrever o dia inteiro... E eu já “quase” escrevo o dia inteiro.

Há pessoas que realmente dançam ouvindo a música, diante das grades num alegre balé triste.

Final de noite. O movimento cai bastante. Estamos num dos nossos momentos de profunda análise, quando conversamos sobre pessoas, sobre arte, sobre psicologia e filosofia. Uma moça se aproxima da jaula e nos dá um grande pacote de pipocas doces!

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

DÉCIMO DIA Quinta-feira, 06 de Setembro de 2007.

Percebo que o Beto está abatido. Emagreceu uns dois quilos desde que iniciamos o trabalho. Iniciamos o dia com a rotina de organização do espaço e nossa cena de café da manhã. Dou uma olhada nos e-mails... O Beto cochila. Estamos cumprindo uma jornada diária de doze horas... Mais uma hora de trânsito... Treze horas em função do LAR DOCE LAR. E é claro que as 24 horas do dia acabam sendo em função do trabalho, mesmo quando dormimos, porque temos ambos sonhado com isso também.

A primeira surpresa do dia foi a visita dos nossos “cumpadres” muito queridos, que vieram de Torres nos ver. Os amigos têm nos visitado com freqüência, inclusive os de outras cidades, para prestigiar nosso trabalho. No último final de semana também vieram nossos amigos de Pelotas. É sempre uma alegria ver os amigos e ficamos nos perguntando se não seria o caso recebê-los, como quem está, de fato, em casa. Mas optamos em mantermo-nos dentro da instalação e conversarmos através das grades, para não interferir no trabalho. No máximo, saímos nós, para um abraço naqueles a quem não víamos há muito tempo. LAR DOCE LAR é um trabalho que vai se caracterizando pela humanidade. Percebemos que, por vezes, precisamos sair de nossos personagens para, ainda assim, criá-los. Às vezes, nos assemelhamos a atores, que estão no palco, outras vezes, somos pessoas reais, vivendo cenas verdadeiras, da nossa realidade, em cena. E a nossa realidade passa a ser a performance.

“Se a gente não ouve a música, não consegue entender!” Diz uma espectadora. Nossa intenção não era explicar a obra através da música, mas que a música seja parte da obra.

Volto do mundo externo com uma caixa de comidinhas para alegrar o Beto, já o encontro bem melhor. O movimento do shopping está estranhamente fraco... Provavelmente por causa do feriado de 7 de Setembro, amanhã. Quando saio da “jaula” e encontro pessoas conhecidas, muitas perguntam o porquê de eu estar fora da “casinha”. O que, por si, já é engraçado, pois a expressão “fora da casinha” poderia ser aplicada quando eu estou aqui dentro, já que o artista, quando está em seu momento criador, está em outro nível de consciência, segundo Paul Valéry. Mas o fato é que, quando planejamos este trabalho, não tínhamos intenção alguma de participar de um desafio, um recorde, nada disso. Como já dissemos antes, a intenção é criar uma cena, reproduzir uma realidade, e isso não impede que saiamos quando muito necessário. A única condição que nos impusemos foi a de sempre haver um de nós presente na instalação e só sairmos quando estritamente necessário. A razão desta decisão é o fato de acharmos que a cena fica mais forte com a presença do casal, caso contrário, poderíamos muito bem estarmos nos revezando, o que muito facilitaria. Por sinal, apenas para constar como diário, hoje saí, das 14h30 às 17h30, para praticar serigrafia, no Instituto de Artes da UFRGS, e providenciar a documentação para a minha formatura em Artes, que acontece este semestre, após cinco anos de muito trabalho e esforço. Estou muito feliz!

Jantamos e seguimos nossas atividades noturnas... O Beto segue lendo um livro. Eu, atualizo fotos no nosso orkut, vejo e-mails, escrevo nosso diário.

NONO DIA Quarta-feira, 05 de Setembro de 2007.



Uma professora leva as crianças para ver nosso trabalho e faz uma ótima mediação... Questiona as crianças sobre o que a obra as faz pensar... Sobre como estão vivendo, em suas casas...

Estou na árdua tarefa de passar a limpo coisas escritas, corrigir e publicar, tudo isso num computador e Internet lentos o bastante para enlouquecer uma pessoa. Mas poderia ser pior, já que há dois dias nem isso tínhamos...!

Seguimos nos surpreendendo com cada espectador que resolve interagir... Uma senhora que nos fala em pena de morte, controle de natalidade, todas estas questões polêmicas e importantes, que estão diretamente ligadas à questão de estarmos vivendo, literalmente, atrás das grades. Uma outra nos vem dizer que às vezes não entende a arte, se sente ignorante diante de quadros e esculturas incompreensíveis. E queria, então, saber o que estávamos querendo dizer com esse trabalho.

O rapaz da loja em frente veio conversar conosco sobre o dia anterior, quando ele deu uma entrevista à UniTv, sobre o LAR DOCE LAR. Esta interação com o pessoal que trabalha no shopping tem sido também uma grata surpresa. Estamos conhecendo pessoas das mais diversas áreas, todos muito interessados sempre em saber como está sendo a experiência, de onde surgiu a idéia. E nós acabamos aprendendo muito com eles sobre uma outra realidade, da qual neste momento estamos, de certa forma, fazendo parte. Acabamos, inclusive, descobrindo onde os funcionários buscam sua comida, um lugar bem mais acessível do que a comida do shopping. Muito importante. Por outro lado, trazemos também uma realidade muito diferente para eles.

Dias atrás, quase adoeci. Hoje, foi o Beto. Neste momento, está de cama, no meio do Shopping, com febre...

Posto no blog os escritos de uma semana... Meus olhos ardem. Sinto cheiro de torradas. Hummm... São 17h49min.

Um acontecimento inesperado... Um coquetel de lançamento de um evento de moda, ao lado da nossa obra. Recebemos convite no nosso LAR DOCE LAR, como qualquer pessoa recebe em sua residência. É claro que fomos pessoalmente prestigiar o evento, assim como muitos lojistas e funcionários do shopping. Bebemos champanhe, brindamos, registramos com fotos a vivência, bem como as curiosas bandejas de deliciosos salgadinhos e docinhos, que vinham decoradas com uma fita métrica! Assim que dei-me conta, perdi um pouco o apetite, pensando na metragem da minha cintura após o coquetel. Neuroses femininas...

O encontro no coquetel nos fez perceber que estamos fazendo muitos amigos no shopping. Conversamos muito sobre o nosso trabalho e respondemos a muitas perguntas das pessoas que, enquanto estávamos “em cena”, tinham vontade de se aproximar mas não tinham coragem. Foi uma rica oportunidade de sermos nós mesmos neste ambiente onde, geralmente, somos outras pessoas. Tivemos a chance de perceber esse lugar como um ambiente humano, cheio de pessoas e suas histórias, cada qual com sua vida e em busca da sua felicidade. O shopping, às vezes, não parece humano, tamanha perfeição. É um local quase asséptico, onde tendemos a esquecer a humanidade das coisas e pessoas.

Conhecemos uma curiosa figura, que trabalha com imóveis, cujo cartão anuncia: escritório nos cafés do Moinhos. Ele mantém um site de idéias e invenções, www.idéiadodia.com.br (segundo ele, fora do ar momentaneamente). Criatividade nunca é demais.

Após o coquetel, de volta à instalação, alguns funcionários das lojas vieram nos visitar, conversando sobre música e arte, e sobre seus projetos artísticos quando estão fora dos seus trabalhos convencionais aqui no shopping. A mágica da arte transmutando tudo. Foi uma noite muito especial.

OITAVO DIA Terça-feira, 04 de Setembro de 2007


Chego sozinha ao shopping. Hoje é o único dia em que fico quase o tempo todo sozinha, já que o Beto trabalha o dia todo. Cancelamos todos os compromissos possíveis para realizar este trabalho, exceto os que eram impossíveis de cancelar. Para cumprir com esses, sairemos, enquanto o outro fica. Como um casal no seu dia-a-dia real. A nossa intenção não é nenhum desafio, do tipo: “agüentar ficar enjaulado por tanto tempo”, mas mostrar uma cena, um quadro, de uma realidade. Tão real, que tem pessoas vivas dentro.

“Essa é uma obra de arte diferente”, diz a mãe.

“Tanta coisa acontecendo e vocês presos!” Diz uma amiga. De fato, Porto Alegre está muito mais alegre nestes dias! Bienal do Mercosul, Bienal B, Porto Alegre em Cena... Ficamos sabendo de tudo através dos jornais... Temos muita vontade de participar de tudo como espectadores que somos, mas estamos ainda mais felizes em estarmos participando como profissionais da arte, com o nosso trabalho, num momento tão especial para a nossa cidade.

Para movimentar o dia, entrevista à UniTv, da PUC. Os comerciantes dos arredores também foram entrevistados, bem como espectadores no momento. Todos juntos por uma causa: divulgar a arte!

Como era de se esperar, com o advento da Internet em nosso LAR, estive o dia todo ocupada com e-mails, “orkutis” e todo o vasto mundo virtual, imprescindível na vida da maioria dos profissionais da atualidade.

Corro meus dedos pelo teclado para atualizar os registros e, em breve, publicá-los na Internet. Também leio, vários livros e jornais ao mesmo tempo... Não na mesma hora, obviamente. O Beto, hoje ausente, resolvendo seus problemas no mundo real.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

SÉTIMO DIA Segunda-feira, 03 de Setembro de 2007.

Hoje faz uma semana desde a abertura. Já estamos bem mais ambientados e acostumados a fazermos de tudo em público. (É claro que usamos os banheiros do shopping para necessidades fisiológicas! – O espectador não merece ver certas cenas da intimidade!)

É hilário: nós dois almoçando “enroladinho de salsicha”, solenemente, em pleno Shopping Moinhos, com nossos óculos escuros, e cara de quem está comendo caviar. Depois, “lavo” nossa louça, espanando-a com um guardanapinho, dentro da lixeira do shopping, ao lado do nosso LAR... A grande lixeira perto da instalação é como que a nossa “pia” da cozinha... Onde depositamos também o nosso lixo seco e poeira tirada do nosso LAR... Que, afinal de contas, junta pó como qualquer residência.

O movimento é pouco na segunda-feira. Visita célebre do Zupo e Isabel de Castro.

Pérola de espectador: “saudosa maloca”... As leituras são diversas e refletem as pessoas e suas percepções e realidades...

Muitas horas do dia colocando em dia os registros escritos a mão.

Um amigo consegue uma possibilidade de colocarmos Internet. Nosso muito obrigado ao Alexandre!

Fui à minha aula prática de aquarela à noite, o Beto ficou no nosso LAR DOCE LAR. Há compromissos no mundo real que resolvemos preservar

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

SEXTO DIA Domingo, 02 de Setembro de 2007.

Até o meio dia, o shopping, no domingo, parece uma cidade fantasma. 12h inicia o movimento mais forte. O Beto, cansado, dorme profundamente, o que deixa as pessoas muito curiosas. As crianças se aproximam e fazem perguntas aos pais. Querem saber porquê “o tio tá dormindo”. Uma mãe responde: “Por que ele viu muita televisão”. Uma senhora idosa tenta cutucar o Beto com uma bengala. A ação dormir dá veracidade, aproxima a obra da vida real. “São presidiários vip”, afirma um espectador. O público de domingo é ainda mais aberto a observar, refletir, parar diante da obra e simplesmente ver... Ouvir a canção. Há fila nos fones. “São artistas! Estão enjaulados como a gente está, em nossas casas!”

“Ele tá dormindo mesmo?” Dormir é a ação que mais chama a atenção.

Um dos seguranças veio nos pedir mais informações sobre a obra, para poder explicar às pessoas que perguntam. Depois de ouvir uma breve “explicação”, constatou: “Ah, era isso que eu tinha entendido mesmo!...”

As moças do café também perguntaram, “mas o quê quer dizer?” Devolvi a pergunta: “Vocês têm grades nas casas de vocês?” Ficaram pensando. E disseram, quase em coro, um “Ah!”, e uma expressão de quem acabou de descobrir um segredo.

Pessoas param em frente à instalação e discutem arte. A estética da obra. “Ah, essa cadeira está assim, por isso e isso... Ela está sentada ali, e ele deitado, para dar equilíbrio...”

“Ouve, ouve, que vale a pena!”

“Que espetáculo isso aqui!”

“Como eles têm paciência?!”

“Eu não entendi o que eles querem dizer!” Diz a senhora, irritada, e sai andando, falando coisas que não consegui escutar, mas não pareciam boas coisas... Bom depende do ponto de vista, neste caso, falar mal também é positivo. O que importa é tocar.

“O artista vai onde o povo está.”

Interativo. Visual. Vivo. Auditivo. Teatral. Nunca é o mesmo porque uma cena nunca vai ser a mesma, nunca vai se repetir.

Nota escrita por um espectador no nosso livro de visitas: “A perfeição invejada!” Uma leitura totalmente diferente. Vendo no nosso quadro um retrato da perfeição... Como se as grades também pertencessem a esse ideal de perfeição.

“Eu estou aqui, em frente às grades!” Mulher ao celular, indicando-nos como ponto de referência.

“Parece propaganda de pasta de dente!” Diz uma outra senhora, com os fones no ouvido, pensando falar baixo.

Uma espectadora não resiste em chamar-nos para dizer que o LAR DOCE LAR, para ela, representava uma simplicidade absoluta: tudo o que, atualmente, é necessário para viver da forma mais simples possível. Elogiou a estética da obra, a sensualidade do sapato vermelho da Cláu, a espiritualidade nos livros, o exercício nos halteres. Ela não tinha escutado a música, que acaba remetendo a um outro aspecto, muito mais chocante, mencionando rottweillers, cercas e tudo o mais... Propus que ouvisse a música. Ela ouviu um trecho e preferiu não embarcar na ironia que a canção insinua. Preferiu levar consigo a sensação gostosa e confortável que havia me relatado anteriormente, a sua primeira impressão.

Colocar os fones é como aceitar um cochicho no ouvido. O espectador doa dois dos seus preciosos minutos e nós doamos a nossa criação, o que há de mais importante nas nossas vidas, naqueles breves dois minutos, só para ele. Cantamos no seu ouvido. Dois minutos de intimidade e entrega, dele e nossa, nosso segredo contado no ouvido. Contado e cantado.